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Há uma ideia perigosa e sedutora de que a psicanálise serviria para nos tornar mais "ajustados" ou, quem sabe, mais silenciosos em nossas angústias. Ledo engano. A psicanálise é, em sua essência, a arte do bem-dizer. Mas atenção: o "bem-dizer" (o bien-dire) não tem nada a ver com a etiqueta, com a eloquência ou com o falar bonito.

Bem-dizer é o esforço ético de dar contorno ao que nos habita, sabendo que as palavras nunca serão suficientes para recobrir o real. É conseguir enunciar a própria verdade, por mais incômoda que ela seja, sem os véus das racionalizações que usamos para nos enganar no cotidiano.

 "Ou Pior"

Quando Lacan nos lança o título de seu seminário, "Ou pior" (Ou pire), ele nos coloca diante de uma encruzilhada radical. Ele parece nos dizer: "Fale. Tente articular o seu desejo, tente nomear o que dói. Porque a alternativa a esse esforço de fala não é o silêncio pacífico, é algo muito pior".

O "pior" é o destino daquele que se recusa ao trabalho da palavra. O que não é dito não desaparece; ele retorna como sintoma, como repetição cega, como um agir impulsivo que nos atropela. O "pior" é a vida vivida no automático, sob o jugo de um inconsciente que, por não ser ouvido, torna-se um destino trágico.

Dizer é uma aposta. E, na análise, apostamos que dizer — ainda que de forma gaga, incompleta e fragmentada — é o único antídoto contra a catástrofe de ser vivido por uma história que não ousamos narrar.

A Escuta do Analista

O analista não está ali para oferecer um dicionário de significados prontos. Ele está ali para sustentar o vazio onde o sujeito pode, finalmente, arriscar um dizer próprio.

A arte da análise consiste em transformar o ruído do sofrimento em uma melodia que, embora às vezes triste ou dissonante, pertence ao sujeito. É o reconhecimento de que somos estrangeiros em nossa própria casa, mas que podemos aprender a habitar esse desconhecido sem sermos devorados por ele.

No fim das contas, a psicanálise nos ensina que o oposto do sofrimento não é a felicidade plena (esse conceito publicitário tão vazio), mas a dignidade de quem consegue dizer sua verdade. Pois, entre a coragem de enfrentar o real pelo verbo ou o abandono ao sintoma, a escolha é clara: é preciso dizer ou pior.

Uma breve nota sobre a prática: Muitas vezes, o paciente chega ao consultório querendo silenciar o sintoma. O nosso trabalho é mostrar que o sintoma é, na verdade, um grito mal articulado. O "bem-dizer" permite que esse grito vire palavra, e que a palavra abra caminho para um novo desejo.