“Linguística, Topologia, e Lógica: Itinerários da Clínica do Sujeito”

Quarentena e o Tempo

Salvador Dalí pintou essa obra para dizer que nos falta tempo para tanta coisa que inventamos no século XX. Albert Einstein disse que o tempo é relativo quando nos aproximamos da velocidade da luz. Essa ideia de tempo relativo é a ideia desse quadro, e é o que estamos vivendo e ouvindo na clínica na quarentena com uma altíssima velocidade da informação.

Em quarentena, em isolamento social, deixamos de ver uma série de eventos naturais. O Sol, a Lua, a flor que dia a dia vai florescendo, o movimento das nuvens. Perguntamos aos vizinhos se vai chover, não é à toa! Nos referimos ao tempo quando dizemos das condições climáticas do dia, a chuva, o nascer e o pôr do Sol marcam o dia, o tempo. Tudo isso que nos ajudava a medir, a sentir a passagem do tempo e ao mesmo tempo, instantaneamente, acontecem um milhão fatos-notícias, in-formações, bits intangíveis, imponderáveis. Hoje morrem tantas mil pessoas, outras tantas estão infectadas, se não são pessoas conhecidas, próximas, parece que não está acontecendo, é, com efeito, uma virtualidade, não há nada mais humano que simbolizar a morte. Até porque isso nos ajuda a lidar com esse Real da morte. Estamos defendemos disso, negamos para viver, talvez neguemos demais, mas não vou me ater a esses processos de defesa desta vez.

Minha questão aqui pensar em como lidar com o fato de estarmos presos num paradoxo do tempo-espaço lentificado e tempo mental acelerado, não que já não estávamos, mas o corpo inerte abre uma lacuna ainda maior, uma diferença. Na civilização sempre vivemos nesse paradoxo, na quarentena isso parecer que está acentuado, mas o que fazer? O que podemos fazer para melhorar a relação acentuada da diferença desses diferentes tempos do corpo e da mente que estamos vivendo na quarentena?

Primeiro queria chamar a atenção para o termo isolamento social e pergunto se esse termo não está inadequado? Uma vez que podemos contar com uma série de tecnologias que nos possibilitam manter o contato social? não teríamos que dizer de um isolamento físico? Assim, talvez, poderíamos costurar melhor os laços sociais, , que são importantes para nossa saúde mental? mesmo que a distância? Ou ainda na intensidade de conviver por mais horas no dia?

Adianto aqui que isso é tarefa nada fácil. O que nos resta, senão, lembrar de analisar e melhorar como estamos lidando com o Outro? com aquilo que, simbolicamente, marca o tempo mesmo no microcosmos de nosso novo cotidiano.

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