“Linguística, Topologia, e Lógica: Itinerários da Clínica do Sujeito”

Quarentena é Liberdade

Vivemos num horizonte nebuloso em relação a nossa liberdade, a pandemia está nos forçando ficar em casa, trabalhar de casa, deixar de frequentar cinemas, restaurantes, teatro, deixar de levar os filhos às escolas, ou seja, fazer o dito isolamento social. Social? Não seria isolamento físico? espacial? Econômico? Ou mesmo biológico? Venho aqui tentar analisar que quarentena não é o oposto de liberdade, talvez possa ser, com efeito da pandemia, um sinônimo.

Questiono esses termos pois, tenho ouvido muito na clínica uma série de pessoas com importante grau de sofrimento psíquico por estarem num nível isolamento social além do que é esperado. Homens e mulheres que estão (inconscientemente?) diminuindo mais do que o necessário suas possibilidades de experenciar a quarentena. Outros parecem se forçar a sociabilidades virtuais extra produtivas com consequências terríveis para a sua saúde mental. Deixam de passear com seus pets, de assistir ao pôr-do-sol, deixar de curtir o tempo com seus filhos e esposa, de fazer alguma coisa que não seja assistir aos telejornais que estão 24h por dia falando de como está a pandemia.

Estamos lutando contra um vírus que ainda não temos muito controle sobre seu grau e meios de transmissibilidade. Nem, tampouco, temos uma previsão concreta de quando sairemos dessa condição, alguns cientistas apontam de que podem ser meses ou até anos ou ainda apenas só quando uma vacina for disponibilizada. Diante do que o mundo sabe até hoje, as autoridades sanitárias tomaram como principal ação o isolamento em diferentes para tentar frear a transmissão do vírus.

Há ainda uma discussão dos que são contra essa medida e os que são a favor. Não vou entrar diretamente nesse FLA-FLU. A análise que pensei em costurar aqui é a partir das pistas na linguagem utilizada e que na clínica dão notícias de que estamos lidando com efeitos da nossa fantasia de liberdade e de castração. Diferentemente debates nas redes virtuais, não vim aqui para falar em nome da realidade e sim, mais uma vez, do campo do inconsciente, da fantasia, da satisfação (do gozo).

Somos seres fal(t)antes e ouvintes imersos na cultura e por tudo isso tomamos posições que visam a qualquer custo (altíssimo muitas vezes) essa satisfação, esse gozar. Acontece que acabamos tomando uma posição em relação a nossa fantasia e por conseguinte também em relação a dita realidade. Sim digo dita, pois é isso, a realidade é aquilo que é dito, não é? Alguém disse para nós o que é cada coisa. Nossa sorte é que há equívocos, falhas na linguagem e daí podemos pensar um pouco diferente do que nos foi apresentado, um pouco melhor, talvez.

Com base nisso, cada um a seu modo, modula, inconscientemente, a realidade a partir do lugar que ocupa na sociedade e na linguagem, cria ou compra uma narrativa ou ainda se opõe. Portanto, nossa posição em relação a realidade pode (e tende na atual cultura) estar mais próxima ao que nos traz satisfação narcísica. Entretanto, se nos permitirmos analisar e se afetar pelo que dissemos, talvez possamos tomar consciência que nossa posição diante da fantasia poderia ser repensada, repesada, rearranjada levando em consideração uma análise responsável e corajosa entre o sujeito e a coletividade além do círculo socioeconômico-familiar e ideológico.

Somos seres sociais, econômicos e biológicos, um vírus que contamina o mundo em meses deixou claro isso. E por isso mesmo, adianta pouco morarmos em condomínios ou dirigirmos carros importados, SUVs. Todos estão sendo infectados. Aquilo que a nossa fantasia nos faz crer de que estamos protegidos, o impossível, cedo ou tarde aparece, reaparece, insiste. Assim, respeitar a quarentena diz do grau de liberdade que possuímos em relação a nossa fantasia de liberdade e não respeitar diz provavelmente do quanto estamos presos, isolados em nossas fantasias narcísicas.

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