“Linguística, Topologia, e Lógica: Itinerários da Clínica do Sujeito”

Psicanálise e Racismo

Vivemos um período tenso em nossa história mundial. Além da Pandemia que mata milhares de pessoas em todo o mundo e nos força ao isolamento social, temos um embate violento e polarizado na Política. Com tudo isso tem-se debatido a função do Estado na sociedade no que se refere a práticas discriminatórias, racistas e até necropolíticas. Jorge Floyd foi mais uma vítima e virou símbolo da luta do movimento “Black Lives Matter”, (Vidas Negras Importam). Em especial esse movimento teve grande vulto nos Estados Unidos, mas repercutiu em muitos outros países, inclusive no Brasil. Com esse debate em voga surgiram críticas ao movimento denegando o racismo do qual temos notícias dia-a-dia e em números que mostram claramente que uma parte da população é atual e histórico e preconceituosamente julgada pelas forças policiais do Estado. Assim, acredito que seria interessante debater as causas dessa importante denegação. Denegação enquanto um termo que diz da posição de negação mesmo diante de fatos que constituem a realidade faz parte da nossa formação enquanto sujeito, contudo, conforme nos colocamos enquanto sujeitos na Cultura.

Somos afetados pela linguagem, isso nos desloca desse lugar e nos convida a estabelecer laços sociais. A qualidade dos laços sociais na presença do racismo fica muito comprometida, uma vez que o racismo coloca o sujeito agredido no lugar de quem não teria o direito de acessar os mesmos direitos, a mesma lei simbólica, nem as mesmas condições materiais. Assim, quando um agente do Estado mata por sufocamento um negro indefeso e outros três assistem é patente o racismo na estrutura do Estado. Negar isso é denunciar que há um ganho nisso, mas quem ganha? O que se ganha?

A nossa consciência é algo bem interessante na articulação com o inconsciente, pois por mais que o que está no inconsciente possa retornar em sintomas, a consciência é dotada de barreiras para admitir algo que revise a posição do sujeito na realidade. Assim, nascer branco num país com o histórico racista como o Brasil ou mesmo os Estados Unidos e compartilhar desde criança toda sorte de preconceitos “naturalizados” (em piadas, filmes, expressões preconceituosas do cotidiano e por todas as consequências disso também perceber que o negros tem pouco acesso à postos de trabalho com visibilidade, profissões valorizadas e melhores remuneração) é gozar de uma série de vantagens e privilégios.

Perguntei quem ganha e o que se ganha, mas se a primeira era óbvia a segunda é contra intuitiva, pois pouco se diz da dificuldade de os sujeitos lidarem com a ideia de perder seus privilégios, essa porção a mais do que seria justo é um objeto de gozo, satisfação. A dificuldade de perder é estrutural do sujeito neurótico, mas é elaborando essa dificuldade que poderemos enquanto sujeito melhorarmos nossa capacidade de estabelecer laços sociais, de construir uma sociedade melhor e de lidar com nossos sintomas e fantasmas inconscientes.

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