“Linguística, Topologia, e Lógica: Itinerários da Clínica do Sujeito”

Uma Leitura do Filme Bacurau

Bacurau tem camadas, camadas sobrepostas, como escamas. Eu vou apontar algumas questões para depois debater a que mais me ressoou.

A primeira camada que queria comentar para fomentar o debate é a simbologia da trilha sonora e sobre a escolha das músicas em especial para a música em inglês TRUE da banda Spanday Ballet que leio agora a tradução que peguei no site vagalume.

Verdadeiro
Com uma emoção na minha cabeça e uma pílula em minha língua
Dissolver os nervos que apenas começaram
Fico ouvindo marvin (a noite toda)
Este é o som da minha alma
Este é o som
Sempre escapando das minhas mãos
A areia faz seu próprio tempo (ref: ampulheta)
Levar os braços à beira-mar e escrever a próxima linha (da Vida?)

Esta música é tocada quando a Dona Domingas oferece o guisado e o suco de caju a Michael numa das cenas mais belas e tensas que mais adiante me dedicarei a ela.

A segunda camada é o que se dá por conta da intensa violência .Walter Benjamin levanta a hipótese sobre um tipo de violência que instauraria uma nova forma do coletivo diante da lei, um reposicionamento que possibilitaria aos insurgidos se recolocarem diante do instituidor da lei, podemos assim dizer, uma recolocação no regime de regras, uma reestruturação do registro do simbólico. Desse modo acredito que seria interessante diferenciar aqui as violências, os tipos de violência, a saber: violência imediata enquanto o que poderíamos nos aproximar da noção de agressividade, exercida pelos habitantes de Bacurau e a violência premeditada, sendo a violência dos Invasores. Enquanto a primeira diz de uma dimensão vital humana e se relaciona no sentido de possibilitar a expansão da lei, quebrar uma lei em virtude de uma lei maior, mais inclusiva, uma lei mais universalizante. Já a outra violência a dos invasores diz de uma dimensão que viola a lei na direção de uma exceção, um privilégio. Essa, então seria uma espécie de Lei Divina, uma verdade incontestável, algo que diz respeito a defesa da vida, da vida nua, portanto inegociável. Uma violência que viria do registro do Real para reconstruir o Simbólico, enquanto a outra vem da tentativa de apagamento do Simbólico para o Real reduzindo-o ainda mais as possibilidades de múltiplas existências.

Há ainda a camada das perversões e perversidades as quais não vou me ater muito, hoje em na minha fala, mas se quiserem no debate podemos ir mais longe. Verleugnung, denegação, desmentido formas do uso da linguagem predominantes quando se fala em estrutura perversa. E aparece desde o prefeito até o descaso de Michael que atira em seus próprios “colegas” ou Joshua que mata uma das crianças e diz que era um rapaz e que estaria armado. Reduzem os brasileiros a objetos descartáveis e numa satisfação orgástica assassinam e se excitam com tudo isso. Há para mim uma alusão ao que Robert Stoller, psiquiatra e psicanalista americano, autor do Livro “Perversão: a forma erótica do ódio” onde ele questiona as ideias machistas e neuróticas que sustentam a primazia do falo. Não vou entrar por aqui agora, mas destaco a importância dessa teoria para pensar a clínica da perversão e por que não a travessia do fantasma.

Por último destaco uma quarta camada, que eu acho ser a mais interessante do filme, que é a camada do feminino, enquanto guardiã do uso da agressividade para conter a violência e possibilitar a emergência de uma nova perspectiva diante da lei, talvez até para restaurá-la. Enfrentando, com seu guisado, o Real, a morte. O Real é o que escapa à realidade, o que não se inscreve no simbólico; ele nos reenvia ao traumático, ao inassimilável, ao impossível. O olhar, o silêncio operam muito bem para dizer dessa força pela sensibilidade. Sra. Domingas é representante daquela lei divina. De quando se coloca diante do Prefeito para tentar barrar a violência que o prefeito poderia fazer a Sandra, personagem da prostituta até a cena magistral com Michael essa força reaparece ainda mais enunciada. A força do desejo de saber se transforma em enunciação de um ato, um ato necessário, Emunah, que do hebraico quer dizer algo de uma fé imanente, concreta. Desse ponto, emergiu no filme aquilo que Walter Benjamin chamou de uma violência divina que parece estar articulada com os significantes preciosos como a justiça, legitima defesa, sobrevivência, e por isso divina? Eu diria que essa violência imediata, inevitável, divina, vou continuar chamar assim por concordar com o filósofo, é aquela que estabelece uma relação com o verdadeiro, pois faz parir um novo, a partir da insistência do Real, insiste buscando o verdadeiro, não a verdade. “Por que vocês estão fazendo isso?” pergunta a Sra. Domingas a Michael. É o “Che voi?” Michael olha para ela e embaraçado, ameaça com uma faca, ela não recua, ele sem saber o que fazer diante daquela força subversiva vira a mesa, mas não a mata, diz mais tarde que não mata mulheres. Curioso isso não? Os diretores ainda colocam a matriarca da comunidade como uma espécie de alucinação de Michael, seria efeito da pergunta da Sra. Domingas? Talvez.

Bacurau apresenta uma função crítica pelo óbvio à necropolítica, contudo nos traz uma surpreendente forma em ato daquilo que restitui nossa capacidade de sonhar. A resistência em ato, um ato político, público, vou dizer assim, e que brilhantemente foi organizado pelos diretores. Os tiros que mataram os invasores saem da escola, do museu com sua história menosprezada e da perspicácia do curandeiro naturalista Damiano que teve o nome menosprezado significaria por coincidência? vencer, domar, subjugar e que com sua sensibilidade violenta estoura os miolos de um dos invasores e sua esposa alveja a outra mortalmente, tudo isso é muito simbólico. Você quer viver ou morrer? Por que que vocês estão fazendo isso? Novamente a pergunta “Che voi?”

Sustentar espaços-tempo de transforma-ação do desejo de saber em um fazer, num ato que possibilite sonhar de outra maneira e dar narrativa a novas possibilidades de existir é algo que deveria nos interessar. Museus brasileiros, escolas e instituições de saúde são pouco visitadas por nós, diria até que abandonadas, assim abandonamos nosso desejo coletivo, público, em troca do desejo privado? Individual?

Lacan nos alerta de que o significante revolução faz relação com a ideia de que os planetas giram em torno do próprio eixo, não haveria então mudanças significativas? Contudo acredito que não foi bem assim no movimento antirracista da década de 60-70 na Diretas Já, na Reforma Psiquiátrica, e recentemente no “Vidas Pretas Importam”?. Esses movimentos não tiveram de ser violentos para operar mudanças significativas? Muito embora tenhamos que reconhecer que uma batalha foi vencida, mas a guerra ainda continua, e por que continua? Para mim é uma questão. Não é assim também no campo singular quando uma mulher toma uma posição e sai do ciclo da violência doméstica? Não é assim quando uma criança grita por socorro para não ser, mais uma vez, violentada? Muitas vezes, infelizmente, a palavra não dá conta, apenas um ato. Uma escrita de mais uma linha da nossa vida viva? Lembram da música True que iniciei esse comentário? fazer o nosso tempo, nossa língua, uma revolução na linguagem. E como nos lembra Safatle. “Não há revolução efetiva sem uma transformação na capacidade de enunciação da linguagem”. E de alguma forma esse filme fez isso. Não à toa o filme nos convoca, nos afeta tanto.

Você quer viver ou morrer?

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