“Linguística, Topologia, e Lógica: Itinerários da Clínica do Sujeito”

Mamãe vai proteger você?

ARKANGEL

Episódio da 4ª temporada da séria Black Mirror, dirigido pela Jude Foster, discute uma importante questão entre mãe e filhos, a saber, qual o limite da educação entre mães e filhos? Ou ate quando mamãe vai proteger você?

O episódio da série narra a estória de uma mãe solteira que depois de passar pela experiência de ter sua filha perdida a encontrou horas depois. Após isso ela tomou a decisão de implantar um dispositivo tecnológico experimental na criança que permitiria a mãe ver tudo o que se passava com sua filha, a saber, localização, sinais vitais, hormônios, e como se isso não fosse suficiente também permitia ver as imagens pelos olhos da filha em tempo real e associado aos níveis de estresse ainda permitia ativar um filtro que alterava as imagens, sons, palavras que sugerissem violência e ou que elevassem os níveis de cortisol ou adrenalina.

Como você já deve prever com o passar dos anos a menina apresentaria algum tipo de dificuldade de lidar com essa dimensão da realidade, a saber a dimensão trágica da vida, já que ela não teve oportunidade de lidar . Essa dimensão é que define nossa condição humana enquanto sujeitos, seres falantes, seres faltantes. Sem mais spoillers cabe aqui algumas reflexões:

Até onde a dimensão virtual tecnológica nos ajuda? Ou nos atrapalha a viver as diferentes dimensões da vida? Evidentemente, quando nascemos precisamos de muita proteção, mas já ao sair do útero materno damos um passo importante e que de certa forma se repetirá ao longo do desenvolvimento ao abandonar um lugar mais seguro para um mais amplo, desse modo ampliamos nossa existência. Ao longo do desenvolvimento infantil cabe aos responsáveis a mediação da criança com o mundo.

Os adultos responsáveis ao apresentarem o mundo a criança oferecerão pontos de vista, opiniões , formas de enxergar o mundo, formas de ser no mundo, mas não só isso, seus medos, suas falhas, sua forma de lidar com a falta, com a lei, com a violência. Cada criança aceitará o que lhe for oferecido de um modo singular. Por sorte não enxergamos o mundo como nossos pais, não completamente. Isso, a educação também tem seu lado trágico, ou seja, até podemos saber o que ensinamos, mas não o que os filhos irão aprender, haverá sempre uma falha, uma falta. Um exemplo disso foi minha experiência a escutar, atrás de mim, ao sair do cinema, uma mãe deu a ordem para um de seus filhos, o menor deles, não devolver os óculos 3D. Esse filho, mesmo tendo clara a ordem da mãe, devolveu. Na tragédia humana há heróis, resistentes, e raros.

No episódio não há referência ao pai e a mãe parece não autorizar que a função paterna ganhasse nem mesmo corpo no avô da criança. Essa função foi elidida pela mãe, desautorizada. Assim, em certo sentido ela tampona, encobre a falta, ocorre então o pior, que é a falta da falta. É disso que se trata no referido episódio.

A educação ética é um pedido (de amor) para a responsabilidade, sem a esperança de que os educandos aceitem, mas com a convicção de nunca saberemos o que eles vão aceitar, pois a decisão última para a vida deles sempre será deles. Desse modo não seria importante aos pais/responsáveis darem um espaço para seus filhos, um espaço de escuta, de privacidade para sujeito se inventar ético, para que desenvolvam a capacidade de decidir o que é melhor para eles, mesmo que ele erre por si mesmo para lembrar do que tentaram ensinar? Não seria importante também pensar a educação de uma criança como sendo a transmissão de um saber um saber ético de lidar com a falta, com a violência, com o não-dito, com o mal-dito, mal- escutado? Não bastaria transmitir conhecimento? Não basta explicar o que é certo e o que é errado?

É importante tentar, se implicar na linguagem, na transmissão de valores, de saberes, além das palavras.

Ética, responsabilidade, tranquilidade, coerência são importantes para a vida? Creio que sim, mas importante ainda quando se é responsável (não-todo) por uma vida de um sujeito em desenvolvimento?

Assim penso que o episódio Arkangel vem trazer essa eterna reflexão, que será sempre pertinente: Como/quando/onde é melhor proteger seus filhos? Essa é uma dúvida angustiante a ser sempre pensada, analisada.

Nas palavras de Saramago:

“Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo ! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo”

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