“Linguística, Topologia, e Lógica: Itinerários da Clínica do Sujeito”

A onda fascista e os afogados

Recentemente foi debatido no projeto cinema com debate “A Onda” (2008) um filme sugerido por dois psicanalistas colegas que debateram aspectos bem interessantes e que pode servir para pensarmos sobre o que anda acontecendo no Brasil. O filme é alemão e baseado em uma história real de um professor do ensino médio que aplica um método didático, duvidoso, para explicar que um regime fascista tem chances reais de retornar mesmo nos dias atuais. Muito embora o debate iniciado pelos debatedores tenha sido muito rico ele ficou em dois eixos: a relação grupal com seu líder e do líder com sua satisfação. Desse último que partirei uma análise a partir da relação de uma das personagens com a fantasia grupal para tentar analisar um paralelo sobre o que tenho visto nas redes sociais.

Tim é um dos alunos que entraram na experiencia grupal proposta pelo professor cujas características foram destacadas como sendo alguém com importantes dificuldades de entrosamento social com os colegas da turma. O diretor marcou a personagem com cenas em que ele se coloca como alguém muito carente de uma experiencia grupal. Em uma das cenas que gostaria focar minha análise, nela ele traz uma quantidade de maconha considerável para um grupo dos garotos e nega ser recompensado financeiramente por isso, numa atitude clara de que ele acredita que aquilo poderia ser a “joia” para entrar no “clube” desse subgrupo. Ele chega a verbalizar: “isso não é nada. Vocês são meus amigos, são minha turma”. E esse grupo dos amigos claramente fazem caras de achar aquilo um tanto estranho, mas aceitam. Aceitam a maconha, mas não a amizade.

Já na formação do grupo autocrático do professor Tim se envolve nas atividades sempre querendo fazer algo a mais, como quando ele pinta o símbolo do grupo na fachada da Prefeitura, compra uma arma, além disso vai até a casa do professor e se oferece como segurança pessoal. O professor questiona essa atitude e ele responde que não teria nada para fazer e que em casa ninguém ligava para ele. Nesta fala fica muito marcado que Tim está estabelecendo uma relação com a ideia do grupo para além do que o professor esperava, mas esse satisfazia. Esse para além que eu gostaria de analisar aqui.

O que se esperava com essa experiência já é algo bastante criticável e perigoso, tanto que na cena final as atitudes dos adolescentes eram quase sem nenhuma crítica ou censura, os adolescentes obedeciam ao professor como um líder inquestionável. Contudo o que acontecera com Tim foi ainda mais acentuado, pois mesmo quando foi advertido pelo próprio professor de que tudo se tratava de um experimento social, ele denega, nega diante dos fatos, nega a interdição da palavra e faz uma passagem ao ato por não ter condições de suportar o fim do grupo, o fim da sua satisfação e se afoga na tentativa de sustentar sua fantasia. Algo ali rompe a linguagem, e vocês sabem ela nos humaniza, controla nossas pulsões, nossos impulsos sexuais e agressivos. Ou seja, desprovidos da capacidade de articular plenamente a linguagem podemos nos afogar em nossa fantasia? e capazes de fazer coisas absurdas.

A partir dessa análise me volto para os movimentos políticos articulados pelas redes virtuais sociais contra e a favor do presidente Bolsonaro. Tenho pesquisados sobre os líderes ativistas com muito engajamento nas redes sociais que postam tuítes, postagens no Facebook, vídeos no Youtube, mensagens virtuais com um certo excesso de agressividade, diria até ódio aos que não concordam com as ideias do seus grupo, sobretudo nos grupos a favor do presidente. Estas mensagens estão tão além do que se espera quanto o que tivermos no personagem do filme analisado acima. Nas redes virtuais sociais esses líderes tem uma influência enorme, mas o que acontece com alguns é que eles parecem dar esse “a mais” para se introduzir nos grupos que sem as redes virtuais sociais eles não estariam introduzidos. Assim como o Tim, esses ativistas políticos estão dando algo além para sustentar suas fantasias grupais? e parecem estar se afogando nessa fantasia ou pior: provavelmente afogando outros e não há boias que não sejam algemas?

ÚLTIMAS PUBLICAÇÕES

CONTATOS